Pentelho No Empadão

quarta-feira, abril 25, 2007

Liberdade

Hoje celebra-se o renascimento da Liberdade. Liberdade pela queda de um regime fascista opressor. Desde esse dia que somos livres. Livres para podermos dizer e escrever publicamente o que pensamos. Livres para escolher o partido político para governar o país. Livres para poder estar em grupo na rua. Livres para ver o país a afundar-se cada vez mais. Livres para sermos cada vez mais pobres enquanto outros são cada vez mais ricos. Livres para podermos espezinhar o vizinho em nosso proveito. Livres para assistirmos à ganância de quem governa. Livres para podermos assumir hoje um cargo de gestão (demasiadamente) bem remunerado. Livres para amanhã podermos abandonar esse cargo com uma choruda indemnização. Livres para depois de amanhã arranjarmos outro cargo ainda melhor. Livres para fugirmos às responsabilidades quando há problemas. Livres para telefonar a alguém e fazer desaparecer um papel comprometedor. Livres para enrolar a Justiça até que ninguém se lembre do que aconteceu. Livres para roubar e matar sem ser condenado. Livres para sermos condenados se em legitima defesa dos nossos bens ou da nossa vida ferirmos ou matarmos alguém. Livres para não podermos criticar (quanto mais prejudicar) quem nos prejudica sem sermos criticados e julgados negativamente. Livres para não podermos fazer justiça pelas próprias mãos. Livres para podermos pedir um favor que beneficie alguém sem sermos chateados pela Justiça. Livres para podermos fechar empresas e deixar os trabalhadores na rua sem nada para comer enquanto nas nossas vivendas há do bom e do melhor. Livres para pagar os nossos impostos a tempo e horas sob o risco de perdermos ainda mais se nos atrasarmos. Livres para podermos estar anos sem receber aquilo que nos é devido porque o Estado é bom pagador. Livres para podermos assumir créditos infinitos para futilidades sem termos maneira de os saldar. Livres para podermos ver as nossas opiniões e vontades ignoradas por aqueles que elegemos. Livres para podermos dar duas bofetadas no professor se o nosso filho não gostar dele. Livres para criar politicas de ordenamento do território. Livres para poder alterar essas politicas à vontade de quem pagar mais. Livres para continuar a construir casas sem gente para as ocupar. Livres para dar casas no centro da cidade aos que nada fazem na vida. Livres para ir morar para lá do Sol posto onde as habitações (não) são mais baratas. Livres para perder horas em filas de trânsito para ir para o trabalho ou para regressar a casa. Livres para fechar hospitais, maternidades, centros de saúde e escolas no interior do país. Livres para nos interrogarmos porque é que as regiões do interior estão cada vez mais desertas. Livres para continuar a acolher e a legalizar estrangeiros quando não há emprego. Livres para ficar em casa a receber o subsídio de desemprego porque não nos apetece ir trabalhar. Livres para receber o subsídio e ir trabalhar à mesma porque sempre é mais algum que entra ao fim do mês. Livres para tudo e mais alguma coisa, desde que não seja util para a sociedade.

Tenho saudades. Saudades do tempo em que este país estava literalmente debaixo de água. Saudades do tempo em que tudo isto era um deserto verdejante e nada se passava. Porque então eu não existia. Mas porque só nessa altura podia ser verdadeiramente LIVRE.

3 Reclamações:

  • Este texto emocionou-me deveras!... Fiquei sem palavras... Apesar de tudo, não tenho saudades do tempo em que não existias.

    Reclamado por Blogger 919, às 25 abril, 2007 22:00  

  • ... os textos políticos que mais interesse me despertam são aqueles denominados de "políticamente incorrectos". Nos outros, nada surpreende porque está lá tudo: do beija-mão reverencial ao argumento estruturado impossível de contrariar. Por isso este post panfletário bem se poderá chamar a voz daqueles que não têm qualquer ligação com um aparelho partidário (ou outras instituições de onde poderão advir benesses de variada ordem e a custo zero) e se limitam?! a viver segundo as regras democráticas. Se não está lá tudo, pouco deve faltar...

    A história dos paises também é feita pelo tempo em que estamos presentes. Estive presente antes de Abril de 74 e detestaria "lá voltar". E esse é um dos problemas da nossa jovem?! democracia e dos nossos quadros políticos. Se trinta e três anos depois, ainda não se conseguiu enterrar de vez o velho Estado Novo, como se pode avançar na modernidade do tempo?

    Reclamado por Blogger Alberto Oliveira, às 26 abril, 2007 11:17  

  • esse foi um dia triste para mim. nunca pensei q a liberdade me pudesse dar tristeza.

    Reclamado por Blogger AR, às 28 abril, 2007 18:43  

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